Aliança EUA e Marrocos: O pacto histórico que molda a crise em Ceuta
Entenda como a parceria centenária entre Washington e Rabat influencia o conflito no Saara Ocidental e a pressão migratória na fronteira com a Espanha.
Por Jornalista Diego Sousa - MTB 0005226/CE· 07 de agosto de 2026 às 07:563 min de leitura

Acordo estratégico consolidado há séculos define o equilíbrio de forças no Norte da África e impacta diretamente a política migratória europeia.
Uma relação diplomática que remonta ao final do século 18 continua sendo o pilar central da geopolítica no Magrebe. O Marrocos mantém com os Estados Unidos o tratado de amizade mais duradouro da história americana, um vínculo que hoje se traduz em apoio militar e reconhecimento de soberania. Essa proximidade, no entanto, gera ondas de choque que atingem a Espanha, especialmente no enclave de Ceuta, onde o fluxo de migrantes é frequentemente utilizado como peça de xadrez nas negociações territoriais.
A gênese de uma aliança secular
A conexão entre as duas nações foi estabelecida formalmente em 1786, quando o Sultão Mohammed III reconheceu a independência dos Estados Unidos, tornando o reino marroquino o primeiro aliado formal da jovem democracia americana. Esse pacto, conhecido como o Tratado de Paz e Amizade, nunca foi quebrado e serve como a base jurídica para que Washington considere Rabat um aliado preferencial fora da OTAN. A estabilidade dessa relação permite que o país africano receba bilhões em assistência e tecnologia de defesa.
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O Saara Ocidental e o reconhecimento de Trump
O ponto de virada mais recente e impactante ocorreu em dezembro de 2020, durante o governo de Donald Trump. Em uma manobra diplomática audaciosa ligada aos Acordos de Abraão, os Estados Unidos reconheceram oficialmente a soberania do Marrocos sobre o Saara Ocidental. Em troca, o governo marroquino normalizou suas relações com Israel. Essa decisão alterou décadas de neutralidade americana e deu ao Rei Mohammed VI um trunfo inédito contra a Frente Polisário, que luta pela independência da região desértica.
A pressão migratória em Ceuta como ferramenta
Essa validação por parte da maior potência mundial encorajou o Marrocos a adotar uma postura mais assertiva frente à União Europeia, especialmente com a Espanha. O território de Ceuta, uma cidade autônoma espanhola no norte da África, tornou-se o epicentro de tensões. Em momentos de atrito diplomático, as autoridades marroquinas costumam flexibilizar a vigilância nas fronteiras, resultando em entradas massivas de milhares de pessoas em solo europeu em poucas horas. Para analistas internacionais, essa é uma forma de Rabat exigir que a Europa siga os passos de Washington e reconheça seu domínio territorial.
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Contexto
A disputa pelo Saara Ocidental é um dos conflitos mais antigos e esquecidos do mundo. Após a saída da Espanha em 1975, a região foi ocupada pelo Marrocos, gerando uma guerra com a Frente Polisário, apoiada pela Argélia. A ONU ainda considera o local um território não autônomo, mas a infraestrutura e o controle administrativo estão majoritariamente sob as mãos de Rabat, que investe pesadamente na exploração de fosfato e na pesca na zona costeira.
Atualmente, a administração de Joe Biden manteve a decisão de seu antecessor, consolidando a posição marroquina. Isso isola a Argélia e coloca a Espanha em uma posição delicada, equilibrando-se entre a necessidade de segurança nas fronteiras e a manutenção de laços comerciais com o vizinho africano. A aliança com os Estados Unidos garante ao Marrocos o status de guardião do Estreito de Gibraltar, aumentando seu poder de barganha no cenário global.
O que esperar
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A tendência é que o Marrocos continue utilizando sua posição privilegiada com o Pentágono para pressionar por um reconhecimento definitivo da União Europeia. Enquanto a questão do Saara Ocidental não for resolvida sob os termos marroquinos, a fronteira de Ceuta permanecerá como um termômetro da temperatura diplomática entre o Magrebe e o Velho Continente. A estabilidade da região agora depende mais da diplomacia em Washington do que das decisões tomadas em Bruxelas ou Madrid.
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