Apps de entrega exploram 'provas de masculinidade' em manobras de risco
Pesquisa da USP revela como plataformas de delivery se beneficiam de comportamentos de risco e busca por virilidade entre entregadores ciclistas no trânsito.
Por Jornalista Diego Sousa - MTB 0005226/CE· 10 de agosto de 2026 às 06:173 min de leitura

Estudo aponta que a busca por afirmação de virilidade e a pressão por produtividade criam ambiente de perigo extremo para ciclistas de aplicativos.
Uma pesquisa conduzida por especialistas da Universidade de São Paulo (USP) revela uma face sombria da economia das plataformas: a exploração de comportamentos de risco como forma de "afirmação masculina". O fenômeno, observado principalmente entre entregadores ciclistas, mostra que manobras perigosas no trânsito de metrópoles como São Paulo não são apenas fruto da pressa, mas de uma construção social de coragem e virilidade que acaba beneficiando financeiramente as empresas de tecnologia.
A cultura do risco nas ruas
O levantamento detalha que atos como atravessar o sinal vermelho, realizar o chamado "fino" (passar a milímetros de veículos em movimento) e "costurar" entre carros em alta velocidade são vistos, dentro do grupo, como rituais de bravura. Segundo o sociólogo responsável pelo estudo, esses profissionais transformam a vulnerabilidade da bicicleta em uma arena de demonstração de força. Para muitos jovens, a capacidade de enfrentar a morte diariamente é o que define sua identidade como trabalhadores "guerreiros" em um cenário de precarização laboral.
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O papel das plataformas de delivery
As empresas de entrega, embora não incentivem formalmente a infração de leis de trânsito, criam sistemas de gamificação e algoritmos de recompensa que se alimentam dessa audácia. O estudo da USP indica que a estrutura de bônus e metas de tempo pune quem opta pela prudência, enquanto premia, indiretamente, aqueles que se expõem ao máximo risco. Esse mecanismo transfere toda a responsabilidade da segurança para o indivíduo, enquanto a plataforma lucra com a logística ultraveloz gerada pelo comportamento temerário.
Impactos na saúde pública e segurança
Dados da Secretaria de Segurança Pública e de órgãos de trânsito mostram que o índice de acidentes envolvendo ciclistas em serviço cresceu exponencialmente nos últimos anos. A pesquisa reforça que a falta de equipamentos de proteção e a ausência de vínculos empregatícios formais deixam esses trabalhadores desamparados após colisões. Em 2023, o número de atendimentos hospitalares a entregadores acidentados gerou um custo milionário ao SUS, evidenciando que o lucro das plataformas gera uma conta social dividida por toda a população.
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Contexto
O Brasil vive hoje uma explosão da chamada "uberização", onde mais de 1,5 milhão de pessoas dependem exclusivamente de aplicativos para sobreviver. A maioria desse contingente é formada por homens jovens e negros, que encontram no setor de entregas a única porta de entrada para o mercado de trabalho. A construção da masculinidade nesse ambiente é moldada pela resistência física extrema e pelo desprezo ao medo, características que as empresas moldam para garantir a eficiência das entregas em tempo recorde.
O que esperar
Especialistas defendem que a solução para mitigar esses riscos passa por uma regulação mais rígida que obrigue as empresas a garantir seguros de vida e saúde, além de reformular os algoritmos que estimulam a velocidade excessiva. O debate sobre a saúde mental e a pressão psicológica sobre esses profissionais deve ganhar força no Congresso Nacional e em tribunais trabalhistas ao longo do próximo semestre, visando frear a exploração da integridade física em troca de rendimentos mínimos.
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Por Diego Sousa | Jornalista – MTB 0005226/CE
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