Belém: moradores usam canal poluído para lazer e ignoram riscos à saúde

População improvisa banho no Canal do Tucunduba para aliviar calor, apesar dos graves perigos de contaminação por esgoto e doenças infectocontagiosas na capital.

Por Jornalista Diego Sousa - MTB 0005226/CE· 21 de julho de 2026 às 10:083 min de leitura

Resumo em 10 segundos

Improviso de balneário em área de drenagem urbana expõe banhistas a bactérias e vírus em meio ao descarte de dejetos.

Moradores das imediações do Canal do Tucunduba, em Belém, transformaram trechos da bacia de drenagem em uma espécie de praia improvisada durante este mês de dezembro. A busca por alívio diante das altas temperaturas registradas na capital paraense tem levado adultos e crianças a mergulharem em águas visivelmente comprometidas. O fenômeno ocorre em pontos onde as obras de urbanização foram concluídas, mas onde o despejo de esgoto doméstico e resíduos sólidos ainda é uma realidade constante e perigosa.

Perigos invisíveis na água

A prática do banho no local acende um alerta vermelho para a saúde pública. Especialistas em infectologia e órgãos de vigilância sanitária advertem que o contato direto com a água do Canal do Tucunduba pode resultar em uma série de enfermidades graves. Entre os principais riscos estão a leptospirose, transmitida pela urina de ratos presente em galerias pluviais, além de hepatite A, micoses de pele e doenças gastrointestinais severas. O ambiente, que serve para o escoamento de águas da chuva, não possui tratamento que o torne próprio para o uso recreativo humano.

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Mesmo com a coloração turva e o odor característico de matéria orgânica em decomposição, famílias inteiras ocupam as margens do canal para momentos de lazer. A falta de opções de entretenimento gratuito em bairros como Terra Firme e Guamá impulsiona essa ocupação de risco. O cenário é agravado pelo fato de que muitos banhistas realizam saltos de pontes e muretas, o que adiciona o perigo de traumatismos e acidentes físicos devido à presença de entulhos e objetos perfurocortantes no fundo do leito.

Ações de fiscalização e conscientização

De acordo com a Prefeitura de Belém, a bacia do Tucunduba é monitorada como parte do sistema de saneamento da cidade. Autoridades sanitárias reforçam que a balneabilidade do local é nula, sendo tecnicamente classificada como água imprópria. Campanhas de conscientização são realizadas periodicamente para informar que a infraestrutura entregue nas obras de macrodrenagem tem o objetivo de evitar alagamentos e melhorar o fluxo hídrico, e não de servir como área de banho ou natação para a comunidade local.

Agentes de saúde destacam que o risco é ainda mais acentuado para as crianças, que possuem um sistema imunológico mais vulnerável e podem ingerir a água contaminada acidentalmente durante a brincadeira. O custo para o sistema público de saúde com o tratamento de doenças de veiculação hídrica é alto, e a prevenção continua sendo o método mais eficaz. A orientação oficial é que a população procure balneários licenciados e praias monitoradas pelos órgãos ambientais na região metropolitana.

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Contexto

O projeto de recuperação da Bacia do Tucunduba é uma das maiores intervenções urbanísticas de Belém nas últimas décadas, visando beneficiar mais de 200 mil pessoas. Embora a urbanização tenha trazido asfalto, iluminação e calçadas, o problema do saneamento básico incompleto faz com que os canais continuem recebendo carga poluidora de milhares de residências que não possuem conexão com redes de tratamento de esgoto.

Historicamente, a capital paraense enfrenta desafios estruturais onde a população acaba ocupando espaços de drenagem como áreas de convivência. No entanto, a transformação de um canal de escoamento em "praia" é um reflexo direto da carência de áreas de lazer seguras nas periferias e do desconhecimento sobre a densidade de microrganismos patogênicos presentes nesses cursos d'água urbanos.

Próximos passos

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A expectativa é que a fiscalização seja intensificada nos pontos de maior aglomeração para orientar os cidadãos sobre os perigos biológicos. Paralelamente, a continuidade das obras de saneamento e a futura instalação de sistemas de coleta de esgoto são fundamentais para que, em longo prazo, a carga de poluição dos canais de Belém seja reduzida, embora o uso para banho continue sendo desaconselhado por normas de segurança urbana.

Por Diego Sousa | Jornalista – MTB 0005226/CE

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