Estudo da USP revela como apps usam 'provas de masculinidade' para lucrar
Pesquisa aponta que plataformas de entrega exploram riscos no trânsito e comportamentos de risco de entregadores como forma de aumentar a produtividade.
Por Jornalista Diego Sousa - MTB 0005226/CE· 10 de agosto de 2026 às 06:033 min de leitura

Pesquisa inédita indica que a busca por virilidade e a exposição ao perigo no trânsito são transformadas em estratégia de rentabilidade pelas plataformas de delivery.
Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revela uma face obscura da economia dos aplicativos no Brasil. O levantamento aponta que a cultura da masculinidade entre os entregadores, manifestada em manobras arriscadas e na velocidade excessiva, é capturada pelos algoritmos das empresas para acelerar as entregas. Segundo o levantamento, o ato de "costurar" entre os carros ou avançar sinais vermelhos não é apenas uma infração, mas uma forma de afirmação social entre os trabalhadores do setor.
A construção da masculinidade sobre duas rodas
De acordo com o sociólogo responsável pela investigação, muitos ciclistas e motociclistas veem a capacidade de enfrentar o perigo como uma prova de coragem. Esse comportamento, denominado internamente como o domínio do "fino" — a passagem milimétrica entre veículos em movimento —, cria uma hierarquia de respeito dentro da categoria. O estudo destaca que o perfil jovem e masculino da maioria dos prestadores de serviço facilita a aceitação de riscos em troca de uma remuneração que raramente cobre os custos de acidentes ou desgaste físico.
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O papel do algoritmo na exploração do risco
As plataformas de entrega não são agentes passivos nesse cenário. O sistema de recompensas e as metas de tempo cada vez mais curtas funcionam como um gatilho para que o entregador ignore normas de segurança. A análise da USP sugere que o algoritmo identifica quem está disposto a correr mais riscos e acaba priorizando esses perfis na distribuição de pedidos. Dessa forma, a coragem masculina torna-se um ativo econômico para as empresas, que conseguem reduzir o tempo médio de espera sem investir em infraestrutura ou treinamento.
Impactos na saúde pública e segurança viária
Os dados compilados pela pesquisa mostram que essa pressão invisível reflete diretamente nas estatísticas de trânsito em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. O aumento no número de acidentes envolvendo entregadores está ligado à necessidade de manter uma performance alta para garantir o pagamento do dia. Para o pesquisador, o que as empresas chamam de eficiência é, na verdade, a transferência do risco empresarial para o corpo do trabalhador, que se vê obrigado a performar uma virilidade tóxica para sobreviver financeiramente.
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Contexto
A precarização do trabalho digital no Brasil tem sido objeto de intensos debates jurídicos e sociais. Estima-se que existam mais de 1,5 milhão de pessoas trabalhando em aplicativos de transporte e entrega no país. A falta de um vínculo empregatício formal retira a rede de proteção social, deixando os trabalhadores à mercê de decisões automatizadas que priorizam o lucro em detrimento da integridade física.
O que esperar
O debate sobre a regulação do trabalho por aplicativos deve ganhar novos contornos com a inclusão de dados sociológicos sobre o comportamento dos trabalhadores. Especialistas defendem que as empresas sejam responsabilizadas não apenas pelo pagamento, mas pela criação de mecanismos que desestimulem a direção perigosa. A expectativa é que o Ministério do Trabalho utilize estudos como o da USP para embasar futuras normas de segurança para a categoria de entregadores de delivery.
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Por Diego Sousa | Jornalista – MTB 0005226/CE
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