Excesso de energia solar gera alerta e desafia estabilidade do sistema elétrico
O rápido avanço da geração distribuída no Brasil cria um desequilíbrio entre oferta e demanda, exigindo novas estratégias de gestão para evitar apagões e custos altos.
Por Jornalista Diego Sousa - MTB 0005226/CE· 09 de agosto de 2026 às 04:013 min de leitura

Crescimento acelerado da geração própria de eletricidade coloca em xeque a operação do Operador Nacional do Sistema e demanda novas políticas regulatórias.
O Brasil vive um paradoxo energético sem precedentes em 2024. O avanço massivo da geração solar distribuída, aquela produzida nos telhados de residências e comércios, está gerando um excedente de oferta que o sistema elétrico nacional não consegue absorver com eficiência. Esse fenômeno, embora pareça positivo, tem provocado um desequilíbrio crítico entre a produção e o consumo em horários de pico solar, forçando o Operador Nacional do Sistema (ONS) a realizar manobras de corte de geração para evitar sobrecargas e garantir a segurança do fornecimento.
O desafio da oferta excedente
A expansão da matriz solar no território brasileiro ocorreu de forma mais veloz do que a infraestrutura de transmissão e as regras de mercado puderam acompanhar. Durante o período da tarde, quando a incidência solar é máxima, a produção das placas fotovoltaicas inunda a rede, muitas vezes superando a demanda imediata das cidades. De acordo com especialistas do setor, o problema não é a energia limpa em si, mas a rigidez do sistema, que ainda depende de fontes que não podem ser desligadas instantaneamente, criando um conflito técnico que pode resultar em instabilidades na frequência elétrica.
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Impactos na operação e custos
Para gerenciar esse excesso, as autoridades precisam, muitas vezes, interromper a produção de grandes usinas ou até mesmo descartar o excedente solar, um processo conhecido como curtailment. A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) argumenta que o país carece de políticas públicas robustas para o armazenamento dessa energia. Sem baterias de grande porte ou incentivos para o deslocamento do consumo, o consumidor brasileiro acaba pagando o preço da ineficiência, já que a gestão de um sistema instável exige acionamentos emergenciais de fontes mais caras, como as termelétricas, para compensar a queda brusca da geração solar ao fim do dia.
A visão das entidades setoriais
Representantes dos geradores solares apontam que a falta de planejamento de longo prazo transformou uma solução sustentável em um gargalo operacional. A crítica recai sobre a ausência de mecanismos que permitam a integração inteligente dessas fontes intermitentes. Para a ABSOLAR, é urgente que o Ministério de Minas e Energia e a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) estabeleçam diretrizes que modernizem a rede, permitindo que o excedente gerado nos horários de sol possa ser aproveitado em outros períodos, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e estabilizando as tarifas.
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Contexto
Historicamente, o Brasil baseou seu sistema na hidroeletricidade, que funciona como uma grande bateria natural através dos reservatórios. Contudo, a descentralização da geração, com milhões de microgeradores espalhados pelo país, mudou o fluxo de energia, que agora corre das pontas para o centro da rede. Em 2023, a capacidade instalada de energia solar superou marcas históricas, consolidando-se como a segunda maior fonte da matriz elétrica nacional, atrás apenas das hidrelétricas, o que exige uma mudança radical na forma como o Operador Nacional despacha a carga diariamente.
O que esperar
O futuro do setor elétrico depende da implementação de tecnologias de redes inteligentes, conhecidas como smart grids, e da regulamentação do mercado de armazenamento de energia. Espera-se que, nos próximos meses, o governo federal anuncie novas rodadas de investimentos em linhas de transmissão e sistemas de baterias para mitigar o risco de desperdício. A modernização do marco legal da geração distribuída também deve entrar na pauta do Congresso Nacional para equilibrar os custos entre quem gera sua própria energia e os demais consumidores da rede.
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