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IA consome acervos físicos: O mistério da destruição de livros raros

Empresas de tecnologia compram milhares de obras físicas em sebos globais para treinar Inteligência Artificial, resultando na destruição de acervos históricos.

Por Jornalista Diego Sousa - MTB 0005226/CE· 10 de agosto de 2026 às 07:023 min de leitura

IA consome acervos físicos: O mistério da destruição de livros raros
Resumo em 10 segundos

Gigantes da tecnologia estão adquirindo volumes massivos de obras literárias em sebos internacionais para digitalização forçada e posterior descarte.

Um movimento atípico no mercado livreiro global tem chamado a atenção de colecionadores e historiadores nas últimas semanas. Empresas de Inteligência Artificial estão realizando compras em larga escala de livros físicos em sebos e bibliotecas particulares de diversos países. O objetivo central é alimentar os chamados Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) com dados que ainda não estão disponíveis na internet, garantindo uma vantagem competitiva no treinamento de algoritmos. Contudo, o destino final dessas obras tem gerado revolta: após o escaneamento de alta precisão, milhares de exemplares estão sendo triturados ou descartados para evitar custos de armazenamento.

A logística da digitalização predatória

O processo começa com intermediários que visitam lojas de livros usados em cidades como Londres, Nova York e Paris, adquirindo lotes inteiros sem critérios de curadoria, priorizando obras publicadas antes da era digital. Segundo relatos de proprietários de livrarias, essas empresas buscam conhecimento analógico puro, que não sofreu as influências das redes sociais ou da linguagem simplificada da web moderna. Uma vez adquiridos, os livros são levados para centros de processamento onde páginas são arrancadas para facilitar a passagem por scanners industriais de alta velocidade, inviabilizando qualquer tentativa de restauração do objeto físico original.

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O conflito entre tecnologia e preservação

Especialistas em direitos autorais e preservação histórica alertam que essa prática configura uma forma de extinção cultural acelerada. Enquanto as empresas de tecnologia defendem que a digitalização "eterniza" o conteúdo, bibliotecários argumentam que a destruição do suporte físico elimina anotações de margem, edições raras e o valor histórico de exemplares únicos. Estima-se que apenas no último trimestre, mais de 500 mil volumes tenham sido retirados de circulação global por compradores ligados indiretamente a laboratórios de tecnologia do Vale do Silício e da China.

Impacto no mercado de livros usados

O fenômeno também está provocando uma inflação artificial no preço de livros antigos. Com a entrada desses compradores institucionais de alto poder aquisitivo, o consumidor comum e o pesquisador acadêmico encontram dificuldades para adquirir obras de referência. Em alguns casos, o valor de lotes de enciclopédias e tratados científicos subiu 40% em menos de seis meses. Donos de sebos na Europa relatam que as ofertas são irrecusáveis, muitas vezes cobrindo o valor total do estoque em uma única transação, o que seduz pequenos comerciantes em crise financeira.

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Contexto

A corrida pela supremacia na Inteligência Artificial exige volumes cada vez maiores de dados de alta qualidade. Com a exaustão dos textos disponíveis publicamente no Google Books e no Internet Archive, as empresas voltaram seus olhos para o que chamam de "dados offline". Histórica e juridicamente, o uso de livros físicos para treinamento de IA ainda é uma zona cinzenta, já que a legislação atual foca majoritariamente na pirataria digital e não na aquisição legal seguida de destruição para fins de mineração de dados.

O que esperar

Organizações internacionais de proteção ao patrimônio literário já estudam protocolar petições junto à UNESCO para classificar acervos de sebos como patrimônio cultural a ser protegido contra a compra predatória. A expectativa é que, nos próximos meses, surjam regulamentações mais rígidas que obriguem as empresas de tecnologia a doar os livros para instituições públicas após a digitalização, em vez de destruí-los. Até que uma lei global seja estabelecida, o destino de milhares de páginas da história humana continuará dependendo do apetite voraz dos processadores de dados.

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Por Diego Sousa | Jornalista – MTB 0005226/CE

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