Juiz indígena Yves Guachala é afastado em SC e denuncia perseguição
Magistrado de Catanduvas enfrenta processo administrativo que pode levar à demissão. Entidades recorrem ao CNJ para apurar possíveis violações disciplinares.
Por Jornalista Diego Sousa - MTB 0005226/CE· 09 de agosto de 2026 às 02:003 min de leitura

Magistrado alega que medidas administrativas ocultam viés discriminatório após atuação na comarca de Catanduvas.
O Poder Judiciário de Santa Catarina vive um momento de tensão institucional após o afastamento do juiz Yves Guachala, de 37 anos, que atuava na comarca de Catanduvas, no Meio-Oeste catarinense. O magistrado, que possui origem étnica indígena, tornou-se alvo de um processo administrativo disciplinar conduzido pela Corregedoria-Geral da Justiça, cujos desdobramentos podem culminar na sua demissão definitiva do cargo. O caso ganhou repercussão nacional devido às alegações de tratamento desigual e motivações ideológicas no processo.
As acusações e a defesa do magistrado
Desde janeiro de 2024, o juiz Yves Guachala responde formalmente a questionamentos sobre sua conduta funcional. De acordo com os autos do processo administrativo, a investigação foca em supostas irregularidades na gestão dos processos sob sua responsabilidade na unidade de Catanduvas. No entanto, a defesa do magistrado sustenta que as cobranças e o rigor aplicados pela Corregedoria extrapolam os padrões habituais, configurando uma forma de pressão desproporcional contra um dos poucos juízes indígenas do país.
Anuncie no BS1 e alcance milhares de leitores
Em manifestações recentes, Guachala afirmou ser vítima de uma perseguição sistemática. Segundo o magistrado, o ambiente de trabalho tornou-se hostil após decisões que não teriam agradado setores tradicionais da estrutura jurídica regional. O juiz argumenta que o afastamento é uma medida extrema que ignora seu histórico de produtividade e tenta silenciar uma atuação pautada pela diversidade e pelo respeito aos direitos fundamentais, especialmente em uma região marcada por conflitos agrários e sociais.
Mobilização junto ao Conselho Nacional de Justiça
A gravidade da situação levou entidades de classe e grupos de defesa dos direitos humanos a acionarem o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em Brasília. O pedido protocolado junto ao órgão federal solicita uma apuração rigorosa sobre a imparcialidade do processo conduzido pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC). O objetivo é verificar se há elementos de racismo institucional ou perseguição política no cerne das acusações que fundamentaram o afastamento preventivo do juiz.
Representantes de movimentos indígenas destacam que a trajetória de Yves Guachala é simbólica para a representatividade no Brasil. A pressão exercida pela Corregedoria é vista por esses grupos como um retrocesso na tentativa de democratizar o acesso aos espaços de poder. Enquanto o TJSC mantém o sigilo sobre detalhes específicos do processo administrativo, a pressão pública cresce para que o CNJ avoque o caso, garantindo que o julgamento não seja influenciado por preconceitos estruturais.
Anuncie no BS1 e alcance milhares de leitores
Contexto
O ingresso de magistrados indígenas na justiça estadual brasileira ainda é uma raridade estatística. Segundo dados do Censo do Poder Judiciário, menos de 0,2% dos juízes no país se declaram indígenas, evidenciando um abismo de representatividade. O estado de Santa Catarina, embora possua uma estrutura judiciária robusta, enfrenta críticas recorrentes sobre a falta de diversidade em seus quadros de cúpula e o tratamento dispensado a servidores e magistrados de grupos minoritários.
O caso de Catanduvas ocorre em um momento em que o Conselho Nacional de Justiça estabeleceu metas específicas para a promoção da equidade racial nos tribunais de todo o Brasil. A interrupção da carreira de um juiz indígena sob alegações de falhas administrativas, sem que o amplo direito de defesa seja plenamente exercido fora da esfera local, levanta alertas sobre o cumprimento dessas diretrizes nacionais de inclusão e justiça social.
O que esperar
Anuncie no BS1 e alcance milhares de leitores
O futuro da carreira de Yves Guachala depende agora do desfecho do julgamento no pleno do Tribunal de Justiça, mas a intervenção do CNJ pode mudar o curso das investigações. Se for comprovada a irregularidade no processo administrativo, o magistrado poderá ser reconduzido ao cargo em Catanduvas. Caso contrário, a confirmação da demissão representará uma perda significativa para a representatividade indígena no Sul do país, mantendo o debate sobre a independência da magistratura e o preconceito institucional no centro da pauta jurídica nacional.
Por Diego Sousa | Jornalista – MTB 0005226/CE
Anuncie no BS1 e alcance milhares de leitores
Fique por dentro do nosso canal no WhatsApp Bs1.online
Comentários (0)
Entre para deixar um comentário.
Carregando...