Justiça Militar anula provas de celulares em caso de agricultor morto em Pelotas
Tribunal Militar decide que acesso a dados de 19 policiais foi genérico. Medida impacta investigação sobre a morte de produtor rural no interior gaúcho.
Por Jornalista Diego Sousa - MTB 0005226/CE· 21 de julho de 2026 às 12:213 min de leitura

Decisão unânime do Tribunal de Justiça Militar invalida extração de dados de dispositivos móveis por falta de especificidade em ordem judicial.
O Tribunal de Justiça Militar do Rio Grande do Sul (TJM-RS) decidiu, de forma unânime, anular todas as provas obtidas a partir de telefones celulares apreendidos com 19 policiais militares investigados. O caso refere-se à apuração sobre a morte de um agricultor ocorrida na zona rural de Pelotas, no sul do estado. Os magistrados entenderam que a autorização judicial que permitiu o acesso aos aparelhos foi excessivamente ampla, violando garantias constitucionais dos investigados.
Falta de fundamentação técnica
No entendimento do colegiado, a decisão de primeira instância que fundamentou a quebra do sigilo de dados não delimitou o que exatamente deveria ser buscado nos aparelhos. Para o TJM-RS, o acesso irrestrito a mensagens, fotos e histórico de navegação, sem uma correlação direta e específica com o crime investigado, caracteriza uma devassa ilegal. A defesa dos policiais militares argumentou que o mandado permitia uma exploração genérica da vida privada dos agentes, tese que foi acolhida pelos juízes militares.
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Com a anulação, todas as informações colhidas nos dispositivos, como diálogos em aplicativos de mensagens e registros de geolocalização, perdem a validade jurídica no processo. O tribunal reforçou que o Poder Judiciário deve observar critérios rigorosos de proporcionalidade ao autorizar a invasão da privacidade, mesmo em inquéritos que apuram crimes graves. A medida atinge diretamente a estratégia da acusação, que contava com o conteúdo dos celulares para detalhar a dinâmica da operação que resultou no óbito do produtor rural.
O desenrolar da investigação
O caso que motivou a investigação aconteceu durante uma abordagem da Brigada Militar em uma propriedade rural. Na ocasião, o agricultor foi atingido por disparos de arma de fogo em circunstâncias que ainda geram controvérsia entre os relatos oficiais e os depoimentos de testemunhas civis. A investigação busca apurar se houve abuso de autoridade, execução ou se os policiais agiram em legítima defesa. Com a exclusão das provas digitais, o inquérito passa a depender quase exclusivamente de perícias balísticas e depoimentos presenciais.
As autoridades da Justiça Militar destacaram que a nulidade de uma prova não significa o encerramento do processo, mas exige que a instrução criminal seja refeita sem os elementos contaminados pela ilegalidade. A decisão serve como um precedente importante para outras operações envolvendo forças de segurança no Rio Grande do Sul, sinalizando que ordens judiciais de busca e apreensão de dados precisam ser cirúrgicas e bem fundamentadas.
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Contexto
A morte do agricultor em Pelotas causou grande comoção na região sul do país, mobilizando sindicatos rurais e entidades de direitos humanos. O conflito entre as narrativas da polícia e da família da vítima colocou sob os holofotes a atuação dos batalhões de choque e patrulhamento rural. Desde o início do processo, em 2023, o sigilo das investigações tem sido um ponto de tensão entre as partes envolvidas.
Historicamente, o uso de provas digitais tornou-se o pilar de condenações em tribunais militares, mas a jurisprudência recente dos tribunais superiores, como o STJ e o STF, tem endurecido as regras para o acesso a smartphones. A decisão em favor dos 19 policiais reflete essa tendência de proteção contra mandados considerados genéricos pela magistratura.
Próximos passos
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Após a publicação do acórdão, o Ministério Público poderá recorrer da decisão em instâncias superiores para tentar validar novamente as provas extraídas. Caso a anulação seja mantida, os promotores precisarão reorganizar a peça acusatória, focando em evidências remanescentes para sustentar a denúncia contra os agentes envolvidos na operação em Pelotas. O cronograma de julgamentos da Justiça Militar deve sofrer atrasos diante da necessidade de excluir fisicamente os dados anulados dos autos.
Por Diego Sousa | Jornalista – MTB 0005226/CE
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