Piso paulista: ícone de SP corre risco de extinção após 60 anos

Desenhado por Mirthes Bernardes na década de 60, o tradicional calçamento que reproduz o mapa do estado de São Paulo perde espaço para pisos econômicos.

Por Jornalista Diego Sousa - MTB 0005226/CE· 01 de novembro de 2026 às 06:003 min de leitura

Piso paulista: ícone de SP corre risco de extinção após 60 anos
Resumo em 10 segundos

A ausência de políticas públicas de preservação ameaça a continuidade do desenho geométrico que se tornou a identidade visual das calçadas da capital.

Criado originalmente na década de 1960, o icônico calçamento em preto e branco que estampa o mapa do estado de São Paulo enfrenta um processo de desaparecimento gradual nas ruas da metrópole. O padrão, que nasceu de um concurso público vencido pela artista Mirthes Bernardes, está sendo substituído sistematicamente por revestimentos de menor custo e manutenção simplificada, como o concreto liso. Sem uma legislação específica que obrigue a conservação do traçado histórico, a paisagem urbana da Capital Paulista perde um de seus maiores símbolos de identidade cultural.

A origem do símbolo paulistano

A história desse ícone começou há exatos seis décadas, quando a prefeitura buscava um padrão que pudesse modernizar a estética da cidade. A proposta de Mirthes Bernardes, na época funcionária da Secretaria de Obras, superou projetos de arquitetos renomados ao unir simplicidade e simbolismo. O desenho utiliza peças de ladrilho hidráulico que, quando combinadas, formam a silhueta do território paulista. O sucesso foi imediato e o grafismo saltou das calçadas para se tornar um logotipo extraoficial da cidade, estampado em souvenirs, roupas e campanhas publicitárias de São Paulo.

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O avanço do concreto e o abandono

Atualmente, a substituição ocorre principalmente pela diferença de custos e pela dificuldade de reposição das peças originais. A instalação do ladrilho hidráulico exige mão de obra especializada e o material tem um valor de mercado superior ao cimento queimado ou blocos intertravados. Em bairros como o Centro Histórico e os Jardins, é comum observar remendos de asfalto ou concreto comum onde antes existia o mapa estilizado. De acordo com especialistas em urbanismo, a falta de um plano de zeladoria focado na memória estética permite que o patrimônio visual seja destruído a cada nova reforma de infraestrutura básica sob a gestão da Prefeitura de São Paulo.

Impacto na identidade urbana

Para historiadores e arquitetos, o fim do piso representa uma perda irreparável para a memória coletiva da maior cidade da América Latina. O desenho de Mirthes Bernardes é um dos poucos elementos que conferem unidade visual a uma metrópole marcada pela diversidade arquitetônica e pelo crescimento desordenado. A ausência de incentivos para que proprietários de imóveis particulares mantenham o padrão original acelera a descaracterização de logradouros famosos, transformando a caminhada pelo Quadrilátero Central em uma experiência visual fragmentada e sem conexão com o passado.

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Contexto

O debate sobre o calçamento de São Paulo não é recente, mas ganhou força com a implementação do programa Calçada Nova, que priorizou a acessibilidade e a durabilidade em detrimento da ornamentação histórica. Embora o concreto liso seja mais seguro para pessoas com deficiência e idosos, críticos apontam que é possível conciliar a acessibilidade com a preservação de faixas decorativas que mantenham o design de 1966. Estima-se que a preservação do piso original tenha caído drasticamente nos últimos dez anos, restando apenas fragmentos em áreas tombadas ou de alto valor imobiliário.

O que esperar

O futuro do mapa paulista nas calçadas depende agora de projetos de lei que tramitam na Câmara Municipal, que buscam tombar o desenho como patrimônio imaterial da cidade. Caso não haja uma intervenção direta do poder público para subsidiar a produção dos ladrilhos ou exigir sua manutenção em áreas específicas, a tendência é que o desenho de Mirthes Bernardes sobreviva apenas em registros fotográficos e museus, sendo totalmente erradicado das vias públicas nas próximas décadas.

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Por Diego Sousa | Jornalista – MTB 0005226/CE

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